Há uma cena recorrente na política brasileira que deveria envergonhar quem a protagoniza, mas raramente envergonha: o gestor que usa o cargo para fazer chantagem política disfarçada de lealdade ao povo.
O prefeito Cláudio Ferreira, do PL de Rondonópolis, entregou essa cena nesta terça-feira em Cuiabá, com todas as letras.
“Eu preciso de recurso para pagar cirurgias. Eu preciso de recursos para comprar remédio. Para fazer asfalto”, disse o prefeito, justificando o apoio a Otaviano Pivetta, dos Republicanos — governador em busca de reeleição —, em detrimento do senador Wellington Fagundes, seu correligionário de partido, seu conterrâneo de Rondonópolis e o candidato chancelado pela direção nacional do PL ao governo de Mato Grosso.
Tradução sem eufemismo: apoio quem me der dinheiro.
Não é lealdade ao povo. É transação. E o pior tipo — aquela que vem embrulhada em populismo, fingindo ser virtude.
Cláudio Ferreira disse que prefere “ser taxado de infiel ao partido do que infiel às pessoas”. Bonito. Só que Wellington Fagundes também é de Rondonópolis, é o favorito nas pesquisas e tem o aval da direção nacional do PL. Se o critério fosse mesmo o bem da cidade, por que trair justamente o filho da terra em melhor posição para governar o estado?
A resposta está no “radar” do prefeito. Pivetta “estendeu a mão para Rondonópolis”. Em outras palavras: quem liberou emenda, quem assinou convênio, quem fez asfalto na véspera da eleição — esse está no coração. Isso tem nome: clientelismo.
O resultado prático é a fragmentação da direita em Mato Grosso num ano eleitoral — um presente dado de bandeja à esquerda. E Cláudio Ferreira sabe disso.
Mas cirurgias, remédios e asfalto vêm primeiro.
O problema é que essa clareza não é coragem cívica. É confissão pública de que, em Rondonópolis, a lealdade tem preço — e se negocia com quem estiver no poder, independente de partido, projeto ou princípio.