Educação Antirracista: Estudo Revela Que Metade dos Estudantes Não Vê o Debate nas Escolas Brasileiras

© Joédson Alves/Agência Brasil

Um estudo inédito, divulgado nesta terça-feira (26), revela uma lacuna significativa na abordagem de temas antirracistas no ambiente escolar brasileiro. A pesquisa aponta que aproximadamente 50% dos estudantes do 9º ano do ensino fundamental e 3º ano do ensino médio não reconhecem a presença do debate sobre desigualdades raciais em suas salas de aula. Este cenário é percebido por pais, como a advogada Karina Berardo, cuja filha de 15 anos em Brasília raramente presencia discussões aprofundadas sobre a cultura negra e suas contribuições.

Karina Berardo, mãe de filhos negros, observa que, embora haja uma ampliação da pauta racial a partir do ensino médio, as discussões frequentemente se restringiam à escravidão no ensino fundamental. Sua percepção de que a temática antirracista é tratada de forma esporádica em sala de aula ecoa os resultados do levantamento, evidenciando que a educação antirracista ainda não se consolidou como uma experiência universalmente reconhecida pelos alunos.

O Cenário da Educação Antirracista no Brasil

Os dados provêm do levantamento “Desigualdade racial na Educação Básica: a percepção de estudantes e professores a partir do Saeb 2023”, resultado de uma parceria entre o Núcleo de Pesquisa Afro do Cebrap e os institutos Alana e Geledés. A pesquisa expõe que, apesar das Leis 10.639/2003 e 11.645/2008 tornarem obrigatório o ensino de história e cultura africana, afro-brasileira e indígena nas escolas, a aplicação prática ainda é um desafio.

Descompasso entre a Prática Docente e a Percepção Estudantil

A socióloga Flávia Rios, professora da USP e pesquisadora do Cebrap, destaca que a legislação antirracista nas escolas tem saído do papel de forma irregular, dependendo de iniciativas de secretarias educacionais ou do Ministério da Educação. Em vinte anos desde a criação da legislação, foram desenvolvidos diversos projetos de formação para gestores e docentes, além de mudanças curriculares. Contudo, não houve uma universalização consistente da aplicação dessa lei, nem sua integração de forma transdisciplinar em todo o sistema educacional.

Um dos achados mais notáveis do estudo é o descompasso entre a autopercepção dos professores e a experiência dos estudantes. Enquanto 81,6% dos docentes do 9º ano e 71,6% do 3º ano do ensino médio afirmam abordar desigualdades raciais “muitas vezes” ou “sempre”, menos da metade dos alunos (46,6% do fundamental e 46,8% do médio) reconhece que a maioria de seus professores trata do tema.

Para a pesquisadora Eliane Firmino, também do Cebrap, esse descompasso reflete a efetividade prática da legislação. A existência de leis é um avanço, mas os dados indicam que a sua aplicação é heterogênea e ainda sofre com as limitações da educação brasileira. Ela ressalta que as escolas particulares não são obrigadas a participar do Saeb, o que significa que os resultados para este setor podem não refletir a totalidade das instituições.

Monitoramento e Esforços Conjuntos para o Combate ao Racismo

Flávia Rios enfatiza a necessidade de monitoramento contínuo das políticas públicas educacionais. O estudo aponta que o diálogo entre a escola e as famílias é crucial para fortalecer o combate ao racismo, exigindo esforços conjuntos da sociedade para promover mudanças de mentalidades e comportamentos cidadãos em relação à diversidade étnico-racial do país.

Variações Regionais e Institucionais

A pesquisa também observa que a percepção sobre a abordagem de desigualdades raciais varia significativamente conforme a rede escolar e o perfil dos estudantes. A sensação de ausência do tema é mais acentuada nas escolas privadas, onde 60,8% dos alunos relatam não reconhecer o debate de forma consistente. Para análises aprofundadas sobre educação, política e sociedade em Mato Grosso e no Brasil, continue acompanhando as atualizações do Portal MT Política.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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