A ex-delegada Ana Cristina Feldner afirma ter sido usada como peça descartável, aponta traição às pautas feministas e sugere que Janaína Riva praticou violência política de gênero
O discurso de empoderamento feminino e defesa das mulheres da deputada estadual Janaína Riva (MDB) está com os dias contados. A delegada aposentada da Polícia Civil, Ana Cristina Feldner, que havia sido convidada pela própria parlamentar para compor sua vaga de primeira suplente ao Senado, quebrou o silêncio para expor a sua substituição repentina e sem explicações da chapa. O resultado foi um ataque direto à credibilidade da emedebista, a quem Feldner acusa de usá-la, enganá-la e desrespeitá-la ao trocá-la nos bastidores.
Conhecida nacionalmente por liderar as investigações da “Grampolândia Pantaneira” – mega esquema de escutas ilegais na gestão Pedro Taques, a ex-delegada gravou um vídeo contundente para destruir a narrativa de defesa da mulher da candidata do MDB. Ao relatar ter sido descartada sem qualquer diálogo, Feldner questionou se a postura da deputada não configura crime de violência política de gênero, lembrando que a legislação também se aplica quando a agressora é uma mulher.
O ponto central e mais severo da manifestação foi a tese de que a violência política não é prerrogativa apenas de homens contra mulheres. Feldner questionou se a conduta da deputada não ultrapassou os limites do debate partidário para se tornar uma infração penal e anulou o principal ativo do discurso da parlamentar junto ao eleitorado feminino.
“A gente acha que essa violência política é praticada apenas pelos homens. Mas eu me questiono hoje: pela lei, uma mulher também pode ser autora deste crime. E eu me pergunto: será que eu não fui vítima desse crime? A candidata ao Senado Janaína Riva não me representa como mulher”, afirmou.
Para ilustrar o que classificou como uma farsa política, a ex-delegada recorreu a uma metáfora: comparou a projeção pública de Janaína a uma padaria, onde o pão bonito na vitrine esconde a real qualidade dos ingredientes utilizados na cozinha. Feldner enfatizou que, ao longo de 25 anos de serviços prestados no funcionalismo público, jamais havia enfrentado tamanha desqualificação pessoal e profissional.
“A primeira farinha dessa padaria é a defesa das mulheres, o empoderamento feminino, a luta das mulheres. E eu posso dizer para vocês: eu não vi nada disso. Não foi assim que eu fui tratada. Tudo muito bonito na vitrine. O problema é que eu entrei na cozinha. Em toda a minha trajetória, em meus 25 anos de serviço público, eu nunca fui tão desrespeitada enquanto mulher. Eu nunca fui tão desmerecida como eu fui nessa curta trajetória”, disparou a ex-delegada.
A ex-suplente fez questão de frisar que o movimento para trazê-la à chapa partiu de um convite pessoal e direto da própria Janaína Riva. Segundo Feldner, seu nome foi utilizado enquanto atendia às conveniências do momento para, em seguida, ser tratado com desprezo e deboche nos bastidores por meio de declarações como “ela não é nada” ou “eu sou a política conhecida”. A ex-delegada também alfinetou a postura da parlamentar, sugerindo que Janaína atua de forma prepotente.
“Eu nunca te pedi esse espaço. O convite veio dela. Talvez, naquele momento, o meu nome fosse importante. Depois, já nem tanto. Hoje eu me sinto usada, enganada, desrespeitada. No mundo da política, quem sou eu na fila do pão? Talvez ninguém. E quem é Janaína Riva? Talvez a dona da padaria”, ironizou.
