IA Mapeia Terras Agrícolas Abandonadas no Cerrado para Restauração Ambiental

© Fernando Frazão/Agência Brasil

Uma pesquisa inovadora desenvolvida pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e pela Universidade de Brasília (UnB), utilizando inteligência artificial (IA), identificou terras agrícolas abandonadas no Cerrado. Esse mapeamento pioneiro abre caminhos para processos de restauração ambiental.

A metodologia empregou aprendizado profundo (deep learning) em imagens de satélite da Agência Espacial Europeia (ESA), capacitando a IA a reconhecer padrões específicos que indicam essas áreas. O estudo focou em terras agrícolas do município de Buritizeiro, no norte de Minas Gerais, uma região integrante do bioma Cerrado.

De forma inédita, a IA conseguiu classificar, através das imagens de satélite, não apenas vegetação nativa, pastagens cultivadas, lavouras anuais e plantações de eucalipto, mas também áreas agrícolas abandonadas. A precisão da análise atingiu 94,7%, um indicador considerado ‘excelente’ para classificações de uso da terra com sensoriamento remoto.

Os resultados da pesquisa foram publicados em um artigo na revista científica internacional Land, especializada em temas como terras, água e clima.

Impacto nas Políticas de Restauração Ecológica

A identificação dessas áreas agrícolas abandonadas gera dados cruciais que podem subsidiar formuladores de políticas públicas voltadas à área ambiental. Segundo analistas da Embrapa e da UnB, os mapas podem auxiliar órgãos governamentais, planejadores e proprietários rurais a priorizar locais para reabilitação, incluindo plantações de eucalipto degradadas e pastagens de baixo desempenho.

Gustavo Bayma, analista da divisão Meio Ambiente da Embrapa, destaca o potencial das tecnologias de IA para apoiar políticas públicas de restauração ambiental. Ele sugere o uso das informações para estimar o potencial de sequestro de carbono da atmosfera, uma vez que áreas verdes contribuem significativamente para a redução do dióxido de carbono, mitigando o aquecimento global. Além disso, os dados podem orientar a criação de corredores de restauração ecológica no Cerrado.

A Dimensão do Abandono de Terras

A análise comparativa dos dados de Buritizeiro entre 2018 e 2022 revelou que mais de 13 mil hectares — uma área equivalente a 4,7% da superfície agrícola original do município — foram abandonados nesse período. Desses, 87% correspondiam a antigas plantações de eucalipto, predominantemente destinadas à produção de carvão vegetal.

Edson Sano, da divisão Cerrado da Embrapa, explica que a região enfrenta desafios produtivos, como baixa produtividade em pastagens durante secas e custos crescentes de insumos. A queda na atratividade econômica da produção de carvão vegetal, devido a fatores como aumento nos custos logísticos e de produção, é o principal motivo para o abandono das áreas de eucalipto.

Desafios e Avanços Futuros da Tecnologia

Os pesquisadores reconhecem a necessidade de avanços adicionais. Edson Bolfe, da Embrapa Agricultura Digital, aponta uma limitação: a análise baseou-se em apenas duas datas de aquisição de imagens em um período de quatro anos, dificultando a distinção precisa entre abandono permanente e práticas temporárias de pousio (descanso da terra por um ano ou menos).

Apesar do auxílio de imagens de alta resolução e visualizações auxiliares, a confirmação do abandono ainda depende, em parte, da interpretação visual e do conhecimento local. O estudo internacional conclui que a melhoria na precisão do monitoramento exigirá conjuntos de dados com maior resolução espaço-temporal.

Contudo, as descobertas ressaltam a eficácia dos métodos de aprendizado profundo para captar transições sutis no uso da terra em ambientes complexos de savana tropical. A IA se mostra uma ferramenta valiosa para o planejamento e a gestão ambiental no Cerrado, fornecendo informações espaciais detalhadas.

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Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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